Por que comprar de quem faz?

Entrevistamos a educadora popular e socióloga Anabela Gonçalves, que nos contou como a economia local contribui para o bairro periférico, podendo atuar para criar uma identidade local.

Por que comprar de quem faz nos territórios: artesãs, artesãos, escritores independentes e artistas?

“O território é capaz de produzir diversas coisas. A importância da produção local é que o dinheiro fica entre as pessoas do próprio bairro e a gente consegue criar uma economia (local), e esperamos que seja mais que uma sobrevivência, que isso cresça! Ainda é muito pouco o que se consome e produz na periferia, mas é um movimento que tende a crescer e se transformar.

Importante pensarmos o que a gente pode criar. Podemos fazer uma pesquisa para construir um lugar de alimentação na periferia? Vamos nos basear na nossa ancestralidade nordestina e, a partir disso, criar um cardápio? Vamos nos conectar, criar diversos restaurantes e assim criar cultura?

O comércio periférico em geral ainda imita o comércio tradicional, do qual as pessoas conhecem, costumam ver por aí e se parece um pouco com a economia criativa. Então se cria a hamburgueria parecida com o fast-food, o sushi com um sushiman, a loja de roupas com a moda atual, mas, com o tempo, surge uma identidade a partir disso.

O que conseguimos reconhecer por meio das nossas relações de consumo que hoje estão desassociadas é que o consumo cria identidade e não a identidade cria o consumo e isso é uma relação que precisa ser discutida. Eu quero parecer com uma pessoa de sucesso então eu compro uma roupa parecida com a dela, mas e se eu criasse uma identidade do que é ter sucesso? O comércio local tem esse poder!

Se a gente criar uma rede de debates e de aprofundamento sobre empreendedorismo local e rede local de trabalho, podemos chegar nesse lugar de produzir cultura, porque um bar pode ser só um bar, mas também pode ser um espaço de poesia. Há vários exemplos disso: o bar do Zé Batidão, aonde acontece o Sarau da Cooperifa; a garagem da Michelle Correa, que se transforma em um Bazar; a Agência Solano Trindade, que abriu um restaurante e uma loja de produtos orgânicos, entre outros.

A produção local cria uma identidade local! Ela pode variar de bairro pra bairro, mas acaba criando um público específico de consumo (e não guetos), que pode ser interessante e assim fazer uma discussão cultural, de referências artísticas de produção e consumo”.

Sobre Anabela Gonçalves…

Formada em Sociologia pela FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo), atua como coordenadora do Centro de Juventude na Fundação Julita, é Presidente da Associação Bloco do Beco e opera na coletiva Periferia Segue Sangrando.

Foto: Tati Limas

Reportagem: Kelly Lemos