Quebrada Orgânica

Da paixão pelo verde da varanda de casa a produtores de Parelheiros que oferecem orgânicos de forma gratuita para famílias da quebrada

Fizemos uma entrevista com os criadores do Quebrada Orgânica: Joyce Izauri de Jesus e Robert José Placides Pereira, mais conhecidos como Joy e Robert!

Como nasceu o Quebrada Orgânica?

A gente já vinha inquieto, com as ideias sobre o meio ambiente, da nossa relação com a terra e com a natureza. Pensando no lugar em que moramos na quebrada; que não tem muita opção de horta, muito contato com o verde. Quando a gente está precisando de terra pra se sentir bem, a gente vai para o sítio, eu sei que a gente não vive dentro do verde que a gente quer, então foi desta inquietude que veio a Quebrada Orgânica.

O Robert mantinha uma horta que não cabia na varanda de casa, foi crescendo; daí a gente viu que cada hora ele plantava uma coisa e tudo que ele plantava, dava! Depois, começamos o sistema de compostagem na nossa casa, o Robert criou a composteira, foi atrás de entender sobre biofertilizante, de utilização do húmus, etc..

Eu (Joy) já trabalhava em Parelheiros, com desenvolvimento local para um braço da prefeitura, tinha contato com os agricultores de lá e fui aprendendo muitas coisas fantásticas. Eu não fui uma criança que tinha família em sítio, não tinha esse contato com a terra e fiquei muito impressionada quando tive contato com este verde em Parelheiros. Descobri que lá tem as últimas famílias rurais do munícipio de São Paulo, são as remanescentes rurais, última área rural em São Paulo de agricultura orgânica.

Hoje se você tenta comprar um sítio lá, eles te perguntam: “o que você vai produzir?”. Se você não cultivar orgânico lá, você fica a ver navios, porque um produtor nunca escoa o seu alimento sozinho, ele sempre escoa numa rede. Então, em geral, só quem consegue entrar para começar a produzir em Parelheiros é quem está interessado no orgânico. Isto deixa a gente muito feliz, e a gente foi se apaixonando, apaixonando, e assim nasceu o Quebrada Orgânica.

Quais as maiores dificuldades?

Somos um projeto que oferece muito para as pessoas e, na maioria das vezes, de forma gratuita. Sempre temos que captar recursos de instituições e editais para poder fazer o Quebrada Orgânica acontecer, sempre oferecendo algum produto para as famílias da quebrada e de forma gratuita.

No ano passado foram 130 composteiras. No ano retrasado, 120. Isso tem um custo alto.  Estamos sempre tentando captar recursos para não ter que cobrar da galera aqui, desta forma a maior dificuldade é correr atrás de captar.

E eis que surge o Enjoy, um delivery de orgânicos, um espaço de negócios…

Como é trabalhar com orgânicos com a população da periferia?

Trabalhar com os orgânicos na periferia virou um projeto de vida para a gente. Hoje temos o Quebrada Orgânica e o Enjoy, que é o delivery de orgânicos, ambos trabalham separadamente. Um tem um lado mais social e o outro é mais um espaço de negócio, que visa gerar renda para pagar as contas, o que garante a nossa sobrevivência.

Trabalhar com orgânico aqui na quebrada é não abrir mão de trabalhar como formiguinha, trabalhando um dia após o outro. O pessoal do “lado de lá da ponte” acha que quem está na periferia não quer consumir orgânicos, mas as pessoas querem! O que elas não têm às vezes é acesso a este alimento próximo (de casa). No mercado, na periferia, não dá pra encontrar um alimento orgânico de qualidade, só conseguimos achar processados orgânicos que estão na prateleira há um tempão. A gente leva orgânicos para pessoa sob encomenda semanalmente; a pessoa pede exatamente o que ela quer e trazemos tudo fresco!

Tem uma coisa que eu não posso perder a oportunidade de falar: muita gente tem um pensamento errado! Acha que está comprando da menina do orgânico (“nossa, coitadinha”!), preciso ajudar, e faz a compra como se fosse um favor. Estas pessoas precisam ver o impacto da coisa, estar aqui oferecendo orgânico para a quebrada é sensacional, o que fazemos é grande. O valor do pedido mínimo aqui pode ser pequeno e o meu lucro pode ser pequeno também, mas o que a gente faz é grande.

Também temos como missão trabalhar a questão da alimentação, mas do alimento como um todo. De tudo em torno do alimento: o que você come, de onde ele vem, quem produz seu alimento, como produz, o que você tem que fazer enquanto pessoa dentro da sociedade. Qual é o papel de cada um dentro de tudo isso? Você não está aí a esmo, você está aqui para alguma coisa, e o que esperamos é que as pessoas assumam este papel!

E daí surge o Festival Quebrada Orgânica…

A 1ª edição do Festival Quebrada Orgânica foi em 2020, com o apoio da Lei de Fomento a Periferia. Foi sensacional, apesar de já estarmos na pandemia, o Robert criou um menu em Gastronomia Social e a gente mandou para casa da galera aquele menu. Não teve festa e nem um grande encontro como a gente sempre faz com a nossa rede, com música, teatro, sarau, poesia, mas ficou a parte gastronômica.

O 2º Festival, deste ano, vem numa pegada maior, no formato de festival online, então a gente produziu todo um leque de programação artística que traz uma abordagem acerca da nossa conexão com a terra. Escolhemos artistas que falam, abordam e mostram na sua arte questões que tem a ver com os nossos conceitos. Gente que gosta de pisar na terra, que gosta de falar sobre valorizar as ancestralidades; valorizar aquilo que vêm da terra, as origens e, ao mesmo tempo, ter visão de futuro.

Então, é gente que tenta fazer o melhor e fazer junto para o amanhã.

Nesta edição, temos inscrições até da Ilha de Páscoa e do Chile, além do Ceará, Rio Grande do Norte, Bahia, Minas Gerais, do interior de São Paulo e capital. Foram cerca de 150 inscrições

O Festival é gratuito, mas também colocamos o box como opcional para quem quiser adquirir. O box é composto por uma cesta de produtos agroecológicos orgânicos e tem um menu gastronômico, que custa R$ 39,00 e serve duas pessoas. É um valor baixo, mas que nos auxilia na manutenção do projeto.

Quer conhecer mais sobre esse projeto? Acesse o site www.http://quebradaorganica.com/  ou o Instagram @quebradaorganica

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